O Samba ainda é o som do Carnaval?
- 6 days ago
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Entre tradição e diversidade sonora, o samba segue como base identitária da folia paulistana, mas fica apagado em meio à ascensão de novos ritmos nas ruas e nos blocos.
por Luiza Borgli
O samba começou a se estruturar em São Paulo no início do século XX, sobretudo em bairros como Barra Funda e Bixiga, onde comunidades negras e de imigrantes mantinham rodas, batuques e encontros que funcionavam como espaços de convivência, resistência e criação. Com o tempo, incorporou influências da tradição rural, do universo operário e da vida urbana, formando uma identidade própria.
Já o Carnaval segue como uma força presente até hoje. Em 2025, cerca de 16,5 milhões de pessoas participaram da festa na capital paulista. Embora os blocos de rua não sejam mais exclusivamente de samba e apresentem repertórios cada vez mais variados, o gênero permanece como referência. O funk, por exemplo, tornou-se presença frequente em blocos de rua, festas independentes e pancadões de periferia, especialmente a partir dos anos 2010, acompanhando a profissionalização do funk paulistano. Em muitos bairros, blocos com repertório que inclui funk, pop e outros estilos coexistem com o samba tradicional, refletindo a multiplicidade musical da cidade.
O presidente da SP Em Retalhos, pesquisador da música e membro da Unidos do Peruche, Famelli Jr., explica, a partir de sua percepção, por que o Carnaval já não é exclusivamente do samba e os fatores que contribuíram para esse processo:
“Além do dinheiro, eu acredito também que, conforme vão mudando as gerações, vai se renovando aquela coisa toda e vai ficando para trás, vai se perdendo. Porque, por exemplo, meu filho mais velho tem 21 anos: ele não gosta de samba, ele não gosta de carnaval, ele não é do carnaval, ele não é do samba. Então, as gerações que vêm vindo, talvez para elas não seja uma coisa bacana, legal. Talvez prefiram o funk, o sertanejo, do que propriamente a escola de samba e o carnaval. E também porque as escolas de samba deixaram de cumprir o seu papel cultural e social. Elas deixaram, de alguma forma, em algum momento, se perderam ali no meio do caminho e deixaram de cumprir esse papel social, esse papel cultural que elas tinham.”
O Carnaval também passou a incorporar com mais força o pop e o sertanejo. Em 2026, por exemplo, o DJ escocês Calvin Harris foi confirmado como atração principal do Bloco Skol no Carnaval de Rua de São Paulo, marcando uma das primeiras vezes em que um artista internacional do pop eletrônico ocupa o trio elétrico de um grande bloco na capital. No mesmo cortejo, dividem espaço artistas brasileiros de forró, piseiro, sertanejo e pop, como Nattan, Xand Avião, Zé Vaqueiro e Felipe Amorim. Paralelamente, cantores sertanejos vêm lançando blocos próprios, como Carnalau (Lauana Prado), Solteiro Não Trai (Gustavo Mioto) e Bem Sertanejo (Michel Teló), ampliando ainda mais o leque de sonoridades da festa.
Porém, o samba segue como elemento central da data, especialmente nos blocos tradicionais e, principalmente, no Sambódromo do Anhembi, onde o samba-enredo domina os desfiles. No mesmo ano, 32 escolas participaram do Grupo Especial, com a Rosas de Ouro como campeã e a Vai-Vai permanecendo como maior vencedora da história do Carnaval paulista.
O samba já não é o único som das ruas, mas continua sendo o principal fio condutor da identidade carnavalesca paulistana, especialmente nas escolas de samba e em blocos tradicionais. Entre transformações, disputas simbólicas e novas influências, o samba permanece como base histórica, afetiva e cultural do Carnaval de São Paulo, coexistindo hoje com uma multiplicidade de ritmos que refletem a complexidade da própria cidade. A questão que fica é: ele ainda é apreciado como antigamente? Para Famelli, a resposta é não:
“Então, a escola de samba, porque assim, para ela colocar o carnaval na rua, não é fritar pastel. Ela tem um trabalho violento durante o ano todo. Acaba um carnaval, já está com outro tema, já começa a trabalhar isso, isso é em qualquer lugar. E aquela parte social e cultural vai ficando para trás, porque não dá tempo. Não tem dinheiro para investir no departamento cultural, não tem dinheiro para você fazer um evento social. Olha, não dá, não tem. Agora, todo o dinheiro que eu preciso é para carnaval, é para o desfile. Aí se transformou naquele negócio ali, robotizado, militarizado, frio, frio, frio.”
Por isso, para que a população consiga aproveitar ao máximo o Carnaval de São Paulo em 2026 e o melhor que o samba tem para oferecer, a Prefeitura colocou à disposição um site oficial (www.carnavalsp.com) com a programação completa dos blocos de rua. No portal da administração municipal é possível consultar os blocos cadastrados, seus trajetos, horários e dias de desfile, com filtros por bairro e período da folia, permitindo que foliões planejem sua participação de acordo com interesses e logística. A plataforma é constantemente atualizada para refletir alterações de itinerário ou inclusão de novas atividades e serve como guia prático para acompanhar a maior festa de rua da cidade de forma organizada.
Além dos blocos de rua, que tomam as principais regiões da capital, muitos foliões também acompanham os eventos das escolas de samba paulistanas, que desfilam no Sambódromo do Anhembi e em outras competições oficiais e preparatórias ao longo do ano. As datas, horários e a ordem dos desfiles geralmente são divulgados pela Liga Independente das Escolas de Samba de São Paulo (Liga-SP) e também podem ser acessados por meio do site da Prefeitura e das redes sociais das próprias escolas. Esses canais trazem informações sobre ensaios técnicos, classificatórias, eventos pré-Carnaval e transmissões oficiais, permitindo que tanto moradores quanto visitantes sigam de perto o desenvolvimento das disputas.
A Central de Notícias da Rádio Alvorada é uma iniciativa do Projeto “Africa Desconhecida!”. Este projeto foi realizado com o apoio da 9ª Edição do Programa Municipal de Fomento ao Serviço de Radiodifusão Comunitária Para a Cidade de São Paulo.

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